CARLA TOSATTO
Assessora de Área

“O meu olhar é nítido como um girassol/Tenho o costume de andar pelas estradas/Olhando para a direita e para a esquerda/E de vez em quando para trás…/E o que vejo a cada mo-mento/ É aquilo que nunca antes eu tinha vis-to…/ Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo.” Fernando Pessoa

Ser criança é ter na cabeça, fantasias; nos olhos, o brilho da poesia; no corpo, o movimento e a música do mundo. É ter curiosidade, fazer muitas perguntas, investigar! É transformar e ser transformada por meio das brincadeiras e de suas infinitas possibilidades de criação, invenção e aprendizagens. É precisar de amor, atenção, cuidado e segurança. É explorar o mundo e tornar a vida uma aventura continuamente reinvestida de possibilidades!

Mas, ainda que haja características comuns às crianças que nos permitem identificá-las em qual-quer parte do mundo, ser criança em uma grande cidade, como São Paulo, não é a mesma coisa que ser criança numa cidade pequena do nordeste do Brasil. Isso acontece porque a cultura na qual a criança nasce, cresce e se desenvolve é determinante para a sua formação. É na relação da criança com a cultura que hábitos, crenças e visões de mundo são criadas.

É importante, pois, compreender a infância e, consequentemente, a criança não como um ser único e universal, mas sim, como um ser cultural, que vive uma experiência social e pessoal, construída e ressignificada continuamente. As crianças não são e não existem como seres abstratos e generalizáveis. Ao contrário, crianças em tempos e espaços diferentes vivem sua experiência de infância de modo muito particular e diverso.

Desconstruir essa ideia de uma criança universal é essencial para podermos olhar, sentir e conhecer as tantas crianças que vivem suas infâncias nos dias de hoje, pois, com isso, saímos do campo da uniformidade e da homogeneização, e cedemos um lugar precioso para a diversidade e a heterogeneidade. Conceber as crianças como seres humanos concretos e reais, pertencentes a diferentes contextos sociais e culturais constitutivos de suas infâncias é, pois, fundamental.

Conhecer e desvelar o que constitui as muitas infâncias possíveis de serem construídas hoje exige, igualmente, levar em conta as próprias crianças, ou seja, concebê-las como atores sociais, protagonistas de seus processos de socialização.

Portanto, conhecer o ser criança pressupõe um olhar atento e sensível, tanto para o contexto sociocultural ao qual ela pertence quanto para a própria criança, pois ela não é somente um produto da cultura, mas criadora de culturas; um se que possui uma alteridade em relação ao mundo adulto, que constrói teorias próprias e um jeito particular e especial de interagir com o mundo para tentar compreendê-lo, transformá-lo, criá-lo e recriá-lo.

Isso se manifesta em muitas ações, criações e comportamentos infantis, como, por exemplo, a brincadeira, na qual a criança revela sua capacidade de ampliar, transformar e ressignificar a realidade em que vive. Isso significa que ela não imita ou copia de forma simples e direta o mundo dos adultos, mas sim, o transforma, modifica, contesta, amplia, confirma, enfim, ela pensa e elabora ideias próprias sobre o mundo, revelando suas necessidades, interesses, conhecimentos e desejos.

Paulo Freire escreveu: “inacabado, sei que posso ir mais além. A construção de minha presença no mundo tem muito a ver comigo mesmo. ”É fundamental, portanto, olharmos para as crianças como produtoras e transmissoras de culturas que devem ser identificadas, potencializadas e preservadas, ou seja, precisamos olhar e conhecer as crianças com base no olhar que elas próprias têm sobre si e o mundo; conhecer as infâncias pelas vozes das crianças!

Com isso, todos nós, crianças e adultos, contribuiremos para essa “eterna novidade do mundo”. Como escreveu Roseanna Murray, “O mun-do é sempre novo/ e a terra dança e acorda/ e acordes de sol./ Faça do seu olhar imensa caravela.” Caravela para olhar, conhecer e dar voz às nossas crianças e às suas tantas infâncias.

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